“Se o Vietname ganhar, as pessoas vêm para a rua celebrar?”, perguntei ao rapaz que me levava de mota, de templo em templo, pelas ruas de Saigão.
“Depois vês,” respondeu-me sorridente.
Passei o meu primeiro dia no Vietname num frenesim turístico, sobrevivendo a cruzamentos impossíveis, fascinado com a cultura riquíssima, destroçado com os relatos de uma guerra que conhecia dos filmes; e quando voltei para o hotel, ao princípio da noite, vinha estafado. Atirei-me para a cama, deixei-me embalar por uma telenovela brasileira dobrada em vietnamita, e quando acordei já o jogo ia a meio.
Passo a explicar: tinha chegado ao Vietname no auge dos SEA GAMES, uma espécie de Jogos Olímpicos do Sudeste Asiático. E o dia em que me lancei à descoberta de Saigão foi o mesmo em que o país anfitrião (sim, o Vietname) discutia com a Malásia a passagem à final do Campeonato de Futebol. Quem ganhasse, defrontava a Tailândia.
Desci à recepção, para jantar e assistir ao jogo com os locais. E resistindo à tentação de vos relatar aqui o jogo (teve momentos memoráveis!), deixem-me que vos diga apenas: foi verdadeiramente emocionante, um clássico “à antiga”, em que a equipa da casa bateu os visitantes por 4 bolas a 3.
Festa no hotel, e da rua em frente ouvia o som de buzinas, e na minha cabeça surgia outra vez a pergunta que fizera, nessa mesma manhã, ao meu guia da motocicleta:
“As pessoas vêm para a rua celebrar?”
Marquês do Pombal em dias de Euro2004? Esqueçam.

Milhões e milhões de motocicletas e gente, bandeiras vermelhas com estrelas amarelas, gritos patrióticos e lágrimas de emoção, flashes e música. Andei durante meia hora entre a multidão, pelo passeio, tentando a custo eternizar estes momentos, em fotografias que de artísticas não têm nada, mas que atestam o caos em que me meti.

Mas o melhor da noite, a cereja em cima do bolo, aquilo que não ficou em fotografia… foi quando a bateria da máquina “deu o berro” e resolvi voltar para o hotel. Quando, do meio da confusão, percebo que alguém me chama. Dois rapazes montados numa mota, equipados a rigor e munidos de bandeiras gigantes, a fazer-me sinal para ir ter com eles à estrada. Sorri, meio-a-medo, eles insistiram, queriam que fosse com eles.
Não sou de dizer “não”, muito menos em viagens. Vale tudo, prefiro arrepender-me das coisas que fiz do que das que não fiz. Por isso montei-me na mota, entre eles, segurei na bandeira do Vietname e durante mais de uma hora percorremos as ruas de Saigão, buzinando com os outros dois milhões de motas, cantando sabe-se lá o quê, celebrando muito mais que apenas um jogo de futebol. A hospitalidade, a partilha e a alegria de viver.
E quem não salta!...