17/07/09

Ser livre na Guatemala

by André Parente*

- Senti-me como se estivesse no Apocalipse Now, naquela cena em que eles vão de lancha a descer o rio – dizia-me o Jorge, durante um almoço na praia de Matosinhos, poucos dias antes da minha partida.

Estas palavras e a expressão de serenidade com que as disse, foram suficientes, como um fotografia ou uma boa história poderiam ter sido, para eu colocar um pin mental no meu mapa da viagem. Rio Dulce, Guatemala.

Descubro, já depois de estar na Guatemala, que Rio Dulce fica a meio do caminho entre onde eu estou e para onde quero ir. Efectivamente, para ir da zona de Petén, onde fica Tikal e El Remate, para as cidades de Guatemala e Antigua tem que, inevitavelmente, passar-se por lá.

Recordo-me das palavras do Jorge. E da sua expressão. O meu cronograma inicial, feito numa folha de Excel, previa uma passagem breve pela Guatemala, apenas os dias necessários para visitar Tikal e conhecer Antigua. Mas sinto que por aqui há mais coisas para viver e aprender e, por isso, decido parar em Rio Dulce. Ou teria já decidido antes de partir, durante aquele almoço na minha querida praia de Matosinhos?

Em Rio Dulce vive-se “no”, “do” e “para” o rio. As deslocações são feitas de barco, as casas e hotéis estão montados sobre estacas e a comunidade comunica entre si por rádio amador. Há várias marinas que recebem navegadores e as suas histórias de viagens e aventuras fascinam-me.

Não há muito para fazer por aqui, além de meia dúzia de tours organizados que não me apetece fazer e a visita ao castelo de San Filipe. Dou mergulhos e tomo banhos no rio; espalmo-me numa das cadeiras da pequena plataforma que o hotel tem amarrada por uma corda ao embarcadouro. No Algarve costumava haver destas plataformas. Eram amarelas e eu costumava nadar até lá e voltar.

Decido que quero alugar um pequeno barco para descer rio acima. Ou abaixo, não sei. Quero ir sozinho, sem “guia” condutor. Ninguém me aluga, claro! Não tenho carta de marinheiro e nem há turistas a pedir tal coisa, logo não há oferta. A coisa mais parecida que consigo e que me permite ir sozinho é um jet ski. É caro e está um bocado fora do contexto mas, por essa altura, já estou completamente obstinado e nada nem ninguém me conseguirá segurar, nem mesmo eu próprio. Ás vezes, quanto cismo com uma coisa, sou assim. Uma vez, vejam bem, há pouco mais de três anos, cismei que até completar trinta e cinco anos faria uma viagem à volta do mundo. Tenho trinta e três.

Negoceio o tempo e o respectivo valor e… “dá-lhe giz!”. Depois de fazer a curva do castillo, entro no gigantesco lago Izabal e o rio inquieto transforma-se numa imensa auto-estrada líquida, de piso liso e cristalino. Cai numa fina cortina de nevoeiro, que me dá a sensação de entrar em alto mar, no desconhecido. Não ouço o barulho do motor e o jet ski parece apenas planar sobre aquela superfície espelhada. Sinto o vento a bater-me na cara. Sou livre.

*o André é do Porto e é outro maluco que, como nós, tem alguma dificuldade em ficar muito tempo no mesmo lugar. Entre voltas ao mundo e outras aventuras, é o autor do www.tempodeviajar.com .

3 comentários:

  1. O Jorge, com muita pena minha, não sou eu - o Jorge aqui do blog. Infelizmente nunca fui à América Central... mas tou muito tentado a colar-me ao passeio do Carlos com a nomad. Será que me arranjam um desconto? ;)

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  3. Eheh... e se fores leitor do Tempo de Viajar tens o seguro de viagens à borla! :). O Jorge do texto é um ex-colega de trabalho e amigo. Abraços. André.

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